Algumas diretrizes para manutenção da saúde oral dos internos de Instituições de Longa Permanência de Idosos
Dra. Ariane Farah Alvarenga Especialista em Odontogeriatria. Presidente do conselho municipal do Idoso de Lavras
O presente trabalho reflexivo (carta) foi realizado e entregue no dia nove de fevereiro de 2007, como forma de sensibilização e de criação de concretude para palavras faladas em diversos encontros com a diretoria da instituição na qual trabalhei por oito anos. Via que minhas palavras eram tão estranhas e descabidas no contexto vivido por aquela instituição que estas se perdiam num grande espaço em branco onde o preconceito havia erguido seu muro de cegueira. Hoje seus frutos ainda são pífios e por isso o estou divulgando com a intenção de desvendar olhos que se cegaram nos véus de preconceitos desumanos que envolveram a saúde bucal como um todo.
Segue abaixo o que intitulei de Algumas diretrizes para manutenção da saúde oral em ILPIs:
Iniciei meus trabalhos voluntários nesta instituição de longa permanência para idosos em 2001 e desde então compartilho do sofrimento calado dos inúmeros internos com seus poucos dentes presentes na arcada, infectados, quebrados, inflamados...etc. Além destes dentados parciais, encontro diariamente com um grande número de desdentados totais sem reabilitação oral (dentaduras) e outros tantos usando próteses, em estado precário de conservação e adaptação, sem o devido cuidado de uso e de higiene, situações estas que restringem seus benefícios e as colocam como fonte de agressões e prejuízos aos tecidos bucais e à saúde geral de seus usuários.
Estomatites são freqüentemente observadas na boca dos idosos portadores de próteses mal higienizadas.
Sua presença além do incomodo e desajuste das próteses, pode levar ao desenvolvimento de patologias mais graves.
A saúde bucal uma vez comprometida, afeta diretamente a saúde geral do idoso, com o comprometimento do equilíbrio orgânico, da nutrição, comunicação, sociabilização, das atividades de vida diária e de sua vida afetiva. Indiretamente associa-se ao aumento da morbidade e mortalidade decorrentes de outras doenças.
Sabemos que em decorrência da história de algumas sociedades humanas, a saúde bucal (odontologia) foi dissociada do restante do corpo. Por esta fragmentação corporal se descompassou o enfrentamento e a visibilidade dos problemas orais. A odontologia de qualidade passou a ser objeto de consumo das classes mais ricas.
Ser pobre e ter dentes estragados tornaram-se quase sinônimos. Este referencial foi introvertido na forma de preconceito, inclusive pelos mais pobres. Assim tornou-se um problema quase invisível na sociedade, pela plena aceitação sacrificial dos envolvidos e a ausência quase completa de questionamentos a este respeito.Como conseqüência, podemos observar grande parte de indivíduos convivendo tranqüilamente com o sofrimento causado por dentes quebrados, ausentes, supurados e doloridos dentro de suas bocas ou das de seus semelhantes.
Esta é uma realidade generalizada no país e conseqüentemente nas atuais instituições de longa permanência para Idosos. É chegado, porém, o momento de fazermos melhor, de compadecermos mais profundamente com o sofrimento de nossos semelhantes e enfrentarmos a luta contra os preconceitos sociais e individuais. Não podemos nos paralisar diante do estado de injustiças e nos omitirmos no seu enfrentamento. Assim me coloco ao dispor da instituição para trabalharmos juntos em direção à mitigação de tal situação e sigo argumentando em favor deste enfrentamento.
Em Instituições de Longa Permanência de idosos (ILPI) o odontogeriatra, especialista em saúde oral dos idosos, tem papel fundamental de adequar satisfatoriamente o ambiente reservado à higiene oral dos diversos tipos de seus residentes.
Atualmente nestas instituições raramente são encontradas instalações apropriadas às capacidades residuais verificadas nos idosos.Assim, a tarefa do higienizador é extremamente dificultada devido à falta de espaço adequado, de racionalização e de otimização dos recursos disponíveis. Esta é uma situação reflexa da invisibilidade e do descaso oficial em relação à saúde oral da população carente.
Além disso, a formação recebida por enfermeiros, técnicos e cuidadores, mostra-se bastante deficiente em medicina dentária e freqüentemente não estão habilitados quer na prestação de cuidados de saúde oral, quer na instrução de pessoal auxiliar de saúde.
Sugestões
è Todos os funcionários que cuidam diretamente dos idosos, sejam treinados e sensibilizados para execução dos cuidados odontológicos necessários. Nesta capacitação, o cuidador, deve ser bem orientado na ação de aproveitamento das capacidades residuais dos idosos em relação ao auto cuidado de higiene oral.
è Introdução dos cuidados de higiene oral, sistematizados, para a realização de escovações dentárias após as refeições principais e antes de dormir.
è Escovação das próteses dentárias e limpeza bucal dos idosos portadores destas, também após as principais refeições e antes de dormir.
èFornecimento de recipiente próprio onde o idoso possa colocar suas próteses limpas para permanecerem dentro de água, durante o descanso noturno.
è Construção de escovódromos em locais estratégicos, para que idosos independentes ou parcialmente dependentes recebam reforços de instruções de higiene dentária e possam praticar a higiene supervisionada, tão importante para manutenção do aprendizado.
Nota adicional: A classificação de dependência em relação à atividade de vida diária em higiene oral, não é a mesma da classificação usada na geriatria clássica. Nesta a classificação usual de dependência em relação às atividades básicas de vida diária não contempla a saúde oral. Pude observar, na prática realizada durante os anos acima citados que a quase totalidade dos internos (aproximadamente cem idosos) apresentavam algum tipo de dependência de ajuda externa, para a correta execução dos exercícios manuais e de elaboração cognitiva requeridos na higiene oral sistematizada.
Experiência com EscoVOVÓdromo
Ao se optar pela construção de escoVOVÓdromo, é prudente garantir uma certa privacidade aos idosos, pois estes tendem a apreciar a higiene oral como uma atividade muito pessoal e são especialmente sensíveis a qualquer sugestão de que a realizam incorretamente.
A higiene oral dos idosos realizada ou complementada pelo cuidadorenvolve aspectos psicológicos críticos adicionais, como a vergonha, sensação de impotência e incapacidade, sentidos pelos idosos. Tais sentimentos originados quando estranhos invadem a sua privacidade ou intimidade (no caso a boca), podem não raras vezes, gerar ou aumentar quadros depressivos. Relatos de vergonha e rejeição a interferências na boca são freqüentemente feitos por idosos e a quebra destas profundas barreiras, nem sempre é muito fácil.
É necessário compreender a individualidade do idoso ao se relacionar com as perdas. A boca pode muitas vezes representar o último ou o único espaço de preservação da dimensão da individualidade, principalmente para aqueles que residem em ILPI.
O bom preparo psicológico do cuidador nesses casos é de grande importância para o sucesso do tratamento. Lembrando ainda que o idoso deve, sempre que possível, ser incentivado a desempenhar a auto limpeza oral e deste modo ter respeitada e preservada sua autonomia, independência e autoestima.
Zulmira Elisa Vono - 2010 / Assessoria de Comunicação - Joseane Astério - Jornalista MTB 25.272?SP Produzido por: http://www.cw3.com.br As informações contidas neste site podem ser reproduzidas desde que citem a fonte.