Aumento da população idosa nos próximos anos eleva a necessidade de crescimento econômico sustentável
Há 30 anos, a população de Passabém, na Região Central de Minas Gerais, era composta por 9,9% de idosos. Pelas estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice quase dobrou, chegando a 17,93%. A cidade, pertencente ao circuito turístico da Estrada Real, perdeu habitantes em uma década. Tinha 1.946 no ano 2000, e hoje tem 1.761. Com Produto Interno Bruto (PIB) - produção de bens e serviços - de R$ 9,252 milhões e renda per capita de R$ 5.033, Passabém não oferece aos jovens emprego e estudo. Por isso, vai ficando cada vez mais entregue aos que não têm condições de sair e se sustentam com a aposentadoria.
Em Poços de Caldas, no Sul de Minas, o cenário é diferente. Os idosos representam 12% da população, índice próximo da média brasileira de 11,4% e inferior ao de Passabém. O PIB é de R$ 2,852 bilhões, e a renda per capita está em R$ 19.137. Em Passabém, a arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), no ano passado, somou R$ 9,13 milhões, enquanto em Poços de Caldas foi de R$ 202,8 milhões.
Mais rica, Poços de Caldas atrai idosos pela qualidade de vida e condições de trabalho. Outros vão a passeio. O turismo, uma das principais atividades econômicas da cidade, recebeu no ano passado 1,2 milhão de visitantes da terceira idade, 60% do total.
Enquanto em Passabém os idosos não conseguem muito mais do que a satisfação das necessidades básicas das famílias e garantem um movimento modesto no comércio local, em Poços de Caldas, os mais velhos trabalham, são empresários e ávidos consumidores. Para o Brasil de 2040, quando 27% dos habitantes terão mais de 65 anos, segundo o IBGE, as cidades precisariam ter um perfil semelhante ao de Poços de Caldas, com seus 255 mil moradores, dez faculdades, 45 creches e indicadores sociais e econômicos que lhe conferem atualmente a posição de maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado.
Especialistas insistem que o Brasil precisa se preparar melhor para a mudança do perfil etário da sua população, sob o risco de enfrentar um colapso econômico, especialmente no aspecto da mão de obra. Faltam investimentos em educação de qualidade e preparação profissional para um quadro de trabalhadores nos setores público e privado com exigências peculiares da terceira idade.
A expectativa de vida vem crescendo, e a taxa de fecundidade (número de filhos por mulher) sofrendo uma queda persistente. Para não falir diante do envelhecimento da população, a Previdência Social terá que esticar a idade mínima para concessão de aposentadoria, o que aumentará o número de pessoas concorrentes a vagas no mercado de trabalho.
Jorge Félix, economista da PUC de São Paulo e um dos estudiosos do assunto no Brasil, aponta fatores aparentemente banais para que o brasileiro aproveite a longevidade e não quebre o sistema público nem afete negativamente a previdência privada. Em seu livro “Viver Muito” (editora Leya), ele afirma que a economia brasileira manterá índices de crescimento satisfatórios se as pessoas forem mais ao dentista, andarem a pé, namorarem e investirem na saúde da pele, por exemplo.
O economista Frederico Gonzaga, professor da Faculdade de Economia da UFMG, alerta para outras exigências de sustentabilidade da economia brasileira com a mudança demográfica. O investimento em infraestrutura pelo setor público é um delas. Outro ponto primordial é o aumento da taxa de investimento dos atuais 19% para 25% do PIB. Na China, segunda economia mundial, esse índice está em 40%.
Idosos garantem mercado em expansão
Apesar de avanços como o Estatuto do Idoso e medidas governamentais para a redução do preconceito, o Brasil não está se preparando para o perfil demográfico planejado para 2040. É a opinião da pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana Amélia Camarano. Para ela, a questão da previdência está sendo esquecida, e o sistema atual é inviável. “O governo pode arcar com o déficit previdenciário, é uma decisão política, mas para o sistema se autossustentar é preciso uma reforma. A proposta de fim do fator previdenciário vem na contramão da redução do déficit. Hoje, uma pessoa que se casa e o cônjuge morre pouco depois, já vai receber pensão vitalícia. Que sistema aguenta isso?”, questiona.
Ainda que parte dos idosos continue trabalhando, a população economicamente ativa será reduzida, e o país terá que buscar formas objetivas de enfrentar isso, diz a pesquisadora do Ipea. Ana Amélia diz que já enxerga no cotidiano as mudanças demográficas. “Você tem um mercado consumidor de idosos em expansão”, afirma.
Um dos setores em que é visível o crescimento da demanda da terceira idade é o turismo. De acordo com José Francisco Salles Lopes, diretor de Estudos e Pesquisas do Ministério do Turismo, nos últimos cinco anos houve aumento de 20% na venda de viagens para clientes com mais de 60 anos de idade. “Eles representam um quarto do total e levam agências de turismo e a rede hoteleira a investir para atender cada vez melhor esse segmento da população”.
Para manter por mais tempo o trabalhador no mercado, é preciso incentivos, como uma política de saúde ocupacional e a redução do preconceito. “O idoso tem mais foco no trabalho, a empresa precisa se conscientizar da necessidade da capacitação continuada e valorizar este funcionário”, afirma Ana Amélia, do Ipea.
Para o professor da PUC-SP Jorge Félix, que em sua dissertação de mestrado tratou das consequências do envelhecimento sobre a economia brasileira, o grande desafio do país nesse campo é a educação. “Só ela vai trazer mais saúde e permitir que o idoso permaneça mais tempo no mercado de trabalho. O idoso tem três anos e quatro meses, em média, de estudo, e é necessário que o ensino seja universalizado, pois nem o diploma de curso superior é garantia de emprego”, diz Félix.
Zulmira Elisa Vono - 2010 / Assessoria de Comunicação - Joseane Astério - Jornalista MTB 25.272?SP Produzido por: http://www.cw3.com.br As informações contidas neste site podem ser reproduzidas desde que citem a fonte.