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FASES DA DOENÇA DE ALZHEIMER- 1

Por Zulmira Elisa Vono do seu livro O Bem no Mal de Alzheimer

 

Na doença de Alzheimer, as alterações cerebrais precedem as manifestações clinicas por muitos anos sendo que, alguns autores, fazem referencias de 20 a 40 anos. Esta fase é chamada de pré-clínica e é silenciosa e com alterações cognitivas muito sutis. Visitas médicas periódicas preventivas são de suma importância para identificar e monitorar as manifestações que possam significar uma demência. Como ainda não temos exames que comprovam a doença antes da morte, casos esporádicos foram comprovados através de exames histopatológicos de pessoas que morreram por acidentes ou outras causas que não o Alzheimer onde foram identificadas formações de emaranhados neurofibrilares e de placas senis sendo que a pessoa não tinha qualquer manifestação de demência. O conhecimento é o grande aliado para que estejamos alerta não apenas para as manifestações e alterações do outro, mas para os nossos e individuais sinais e sintomas que possam ter significado clínico de demência para um profissional medico capacitado. 

 

A doença de Alzheimer tem estágios com grande variabilidade na duração e nas diferentes pessoas acometidas. Em alguns casos os sintomas evoluem lentamente possibilitando a manutenção de níveis funcionais razoáveis por muitos anos; em outros, a deterioração é mais rápida, mas ocorre em velocidade constante; em outros evolui em surtos de piora seguidos de fases de estabilidade que chegam a durar um ano ou mais.

 

Mesmo considerando esta variabilidade, a evolução da sintomatologia é classicamente dividida em três fases: inicial, intermediária e final, sendo que o tempo médio de duração da primeira é de 2 a 10 anos, a segunda, de 1 a 3 anos e a terceira, de 8 a 12 anos. O tempo de vida depende diretamente das condições gerais de saúde e da forma como o paciente será tratado. Outro fator que interfere muito na evolução da doença de Alzheimer é a fase em que foi diagnosticada e iniciado e mantido o tratamento correto. Como o conhecimento popular atrela a doença de Alzheimer ao esquecimento, geralmente é este sintoma que leva o próprio idoso e ou seus familiares e cuidadores a procurar atendimento médico. Desmistificar este entendimento é um desafio e mais ainda levar a população a alargar sua visão sobre a sutileza das manifestações desta doença. É de suma importância que o leitor saiba que nem todo déficit de memória significa que a pessoa é portadora de Mal de Alzheimer e que o diagnóstico médico é imprescindível.

 

Na fase inicial da doença de Alzheimer, geralmente desconsiderada ou despercebida, as alterações da memória são manifestadas no trabalho, nas relações familiares e ou sociais e geralmente nas ações rotineiras da vida diária. Estão relacionadas à memória de curta duração, recentes, onde ações como, perder a chave do carro, esquecer a conta a pagar, o aniversário do irmão ou do filho, o nome de uma pessoa próxima, um termo técnico que faz parte de seu linguajar, o nome do filme que assistiu no dia anterior, entre tantos outros lapsos, acontecem a princípio esporadicamente. Nesta fase ainda há a intenção de justificar o lapso, muitas vezes mascarando a falha, usando como estratégia responsabilizar outras pessoas pelo fato dizendo, por exemplo, que alguém tirou a chave do lugar costumeiro, que está tão preocupado que esqueceu até o aniversário do filho, que não gostou do filme por isso não gravou o nome e assim por diante. Considerar o lapso é incomum e poderia ser o inicio de um cuidado específico, lembrando que o diagnóstico precoce é o aspecto dos mais desejáveis para intervenções terapêuticas igualmente precoces da doença de Alzheimer o que proporciona melhor prognóstico e certamente, melhor qualidade de vida, mesmo consciente que ainda não há cura para este mal.

 

Nesta fase a pessoa portadora da doença de Alzheimer pode perceber as suas dificuldades e em função desta constatação, mudar o seu comportamento. Esta percepção é limitada no tocante à gravidade e qualidade das alterações que lhe acontecem. Diante da constatação, as mudanças se concentram em dois grandes grupos: um caracterizado pela apatia, isolamento, passividade, desinteresse e muitas vezes depressão e outro marcado pela agressividade, irritabilidade, egoísmo, e se tornam rudes, desagradáveis, implicantes, inflexíveis. Mas reforçando o que já foi colocado, a personalidade não muda com a doença e sim traz à tona, características muitas vezes reprimida, camuflada por questões sociais.

 

As características negativas ficam mais exacerbadas em comparação com as positivas. Assim, quando um pessoa acometida pela doença é intelectualizada, tem habito de leitura, as manifestações de esquecimento poderão ser tardias. Pessoas que tem pouco estudo, não possuem habito de leitura, não são dadas a lembranças de fatos históricos, pode ter a fase inicial da doença percebida em ações domesticas ou no trabalho. Ocorre-me um exemplo de uma pessoa acometida pela doença que na fase adulta guardava na memória uma infinidade de números de telefones. Na fase inicial da doença, suas primeiras manifestações de esquecimento foram com relação a recados recebidos via telefone. Na fase final da doença, ainda repetia alguns números com absoluta precisão.

 

Ainda na fase inicial da doença outras alterações devem ser consideradas. As alterações marcantes são na área da cognição, composta de múltiplos processos mentais, como atenção, percepção, memória, execução de tarefas, noção espacial, linguagem e aprendizado. Entre os distúrbios da cognição está a memória mas não é apenas ela que está alterada na doença de Alzheimer.

A cognição é composta de múltiplos processos mentais, como atenção, percepção, memória, execução de tarefas, noção espacial, linguagem e aprendizado. Durante o processo de envelhecimento, pode ser observada a diminuição da memória, da atenção, do desempenho das habilidades motoras e da capacidade de visão espacial.

 

O declínio da função cognitiva interfere no desempenho ocupacional e nas atividades sociais das pessoas. Indivíduos com demência têm piora da função cognitiva, porém nem todos que apresentam esta piora, são demenciados.

 

Cognição é a capacidade de processar informações; é a capacidade de adaptação a situações absolutamente diferentes em curto espaço de tempo; é a aquisição de um conhecimento através da percepção.

 

As estruturas do encéfalo ligadas à memória estão diretamente associadas a fenômenos afetivos e da motivação. Do ponto de vista psicológico, não se pode falar em memória sem falar em emoção. Por isso, o conceito de cognição abrange toda a capacidade de processar informações, de reagir ao que percebemos no mundo e em nós mesmos.

 

A cognição é um processo pelo qual o ser humano interage com os seus semelhantes e com o meio em que vive sem perder a sua identidade existencial. Ela começa com a captação dos sentidos e logo em seguida ocorre a percepção. É, portanto, um processo de conhecimento, que tem como material a informação do meio em que vivemos e o que já está registrado na nossa memória.

 

Estas colocações objetivam chamar à atenção dos leitores para a amplitude das manifestações da doença de Alzheimer logo na primeira fase. Não são apenas sinais de dificuldades de memória que devem ser considerados, mas outras manifestações emocionais e comportamentais.

 

No processo evolutivo desta demência senil, o próximo passo é deixar as tarefas sem terminar e não ter consciência do fato; esquecer o que foi fazer na cozinha; deixar o fogo aceso quando deveria desligá-lo após o termino de uma comida; esquecer de desligar o ferro após passar uma roupa. A situação se agrava quando a pessoa tenta fazer duas ou mais tarefas ao mesmo tempo como, por exemplo, cozinhar e assistir televisão, ou passar roupa e acompanhar a fervura do leite, ou até mesmo cozinhar dois alimentos ao mesmo tempo e tem como resultado indesejável, deixar um deles queimar mesmo estando perto do fogão.

 

É importante ressaltar que pessoas que sempre tiveram a dificuldade de realizar tarefas associadas, não estão incluídas neste caso. Da mesma forma, não podem ser consideradas com dificuldades cognitivas, pessoas que chamamos de “desligadas” e estão sempre perdendo coisas, se esquecendo onde colocaram seus objetos pessoais. Estas pessoas desorganizadas ou que sempre transferiram estes cuidados para outra pessoa, vão continuar sendo assim e será ainda mais difícil perceber quando as atitudes confusas passam a se avolumar e extrapolar os limites da senescência, adentrando a senilidade.  Deverão ser consideras as alterações, na medida em que estas dificuldades aumentam ou passam a fazer parte do dia a dia de uma pessoa que sempre foi atenta a seus pertences e compromissos, por exemplo.

 

Paralelo a estes esquecimentos, surge lembranças do passado com muita clareza e a pessoa se sente muito confortável diante da situação. Torna-se repetitiva, conta várias vezes a mesma história até porque são elas que lhe vêm à memória, ou melhor, são estas lembranças que estão entranhadas em seus neurônios remanescentes.

Há uma seqüência em que as dificuldades vão surgindo e é sempre da mais complexa para a mais corriqueira. Neste momento deparamos com justificativas quase unânimes na recusa da realização de alguma tarefa: “já fiz isto por muitos anos e agora não quero mais fazer”. A fluência verbal vai sendo mantida embora muitas vezes sem conteúdo, sem significado, sem essência. São conversas banais, medíocre, independente do nível de escolaridade. A orientação viso-espacial também vai deteriorando e é comum não se lembrar de locais familiares e justificar: “reformaram esta casa?”; “esta rua está muito diferente de como era no meu tempo”; “construíram nova casa neste local por isso não estou lembrando deste pedaço da rua”; “esta loja está diferente, deve ter mudado de dono”. E assim, a própria pessoa, seus familiares e cuidadores, podem não só aceitar a justificava como também considerar normal alguns fatos entendendo-os como parte normal do envelhecimento e em muitos momentos como sendo verdadeiros.  

 

As mudanças comportamentais e emocionais podem também acontecer na primeira fase da doença. Alguns exemplos são clássicos como a displicência com o cuidado pessoal. A higiene oral é geralmente a primeira a ser negligenciada, não sendo incomum depararmos com restos alimentares entre os dentes. Quando chamados à atenção, podem se irritar e outros se comportam como se não fossem com eles que estamos falando. Com a evolução da patologia, o desinteresse pelo banho surge e também as justificativas como: já tomei banho hoje, você é que não viu. A escolha de roupas pode ser inadequada, mal combinada, imprópria para a temperatura. Pessoas idosas são mais sensíveis ao frio e se sentem menos incomodadas com o calor; é necessário considerar esta peculiaridade, mas também estar atento aos exageros.

A despeito destas alterações, os pacientes na fase inicial da doença de Alzheimer, ainda têm vida social, permanecendo alerta.

 

Zulmira Elisa Vono - 2010 / Assessoria de Comunicação - Joseane Astério - Jornalista  MTB 25.272?SP
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